19.11.12

Durante o primeiro ano não se passa nada, Portugal está parado, as coisas estão iguais. Não há muito para ver se não o passado, aborrecimento, as coisas iguais.

Voltando para a Índia, com a decisão de passar aqui o ano completo, até Junho. Porque podem haver saudades mas não se deve passar muito.
E depois, e depois o pessoal está a voltar aos hinos da revolução e a por as ruas a arder e metade da família está a ter bebés. (metade é um bocado hiperbólico, quando as pessoas em questão são importantes pode-se fazer disto, espero que ninguém se importe.)

Até já, país. 




Watching the wide world riot
And hiding out
I'll be coming home next year. 

Into the sun we climb
Climbing our wings will burn white
Everyone strapped in tight
We'll ride it out
I'll be coming home next year

18.11.12

Expedição Natalícia :)

Acabei de receber este email:

"HEY GANG

The 7 of us have the mission of crossing the mighty Thorung La (5540m) around Christmas Day! Snow? Glacier?? HELL YEAH!!

THIS IS GONNA BE F*****G AMAZING.

Tickets have all been booked. Depart Delhi on 14th Dec, return to campus Sunday 6th Jan. You don't have to worry about anything. Except, death. And getting to Delhi before the 14th. 

(...)

One of our flights goes between Annapurna 1 (8000m+) and Dhaulagiri (8100+m). It's supposed to be spectacular flight (one of world's craziest). AND GUESS WHAT! You can open the windows on this airplane and stick your hands out<wtf>. Tourists come all the way to Nepal just to go on this flight... 

Not many of you have been on a hike with me, or with each other, and it's a very different experience, we work like a machine, every part moving perfectly with the rest, so let's do a practice hike soon??! YA YA YA?!

AND

Winter Expedition Dinner! Nepali food, and/or pizzas and burgers :) This Thursday night. Let me know ASAP if there are scheduling problems.. (...)"


Agora, é só o pé destorcer da queda de quarta feira (ando aos saltinhos pelo campus) e fazer planos para a primeira semana das férias, depois, os Himalayas.

Entretanto, as notas sairam. E as candidaturas para universidades são enviadas muito em breve. (no pressure, right?) ("I'm gonna make it through this year, if it kills me.")


 

13.11.12


esta imagem são as minhas quintas-feiras, às duas e meia. 



...


(as únicas saudades que existem são as saudades de ser criança)



8.10.12

Aquele dia da semana depois de um fim de semana prolongado em que não conseguimos dormir e decidimos escrever coisas aqui

É possível que este post seja considerado insensível a nível religioso.



A Maho (Japão) contou-nos a história de um mangá que é bastante famoso, lançado em 2007 que se foca na história de Buddha e Jesus Cristo, que nesse universo são companheiros de casa, e enfim, isso torna a vida interessante nessa casa. Estas duas personagens vivem no Japão e tentam esconder a sua identidade como figuras que são. Jesus não pode utilizar piscinas públicas porque a água simplesmente afasta-se dele. Por outro lado, Jesus tende a ser representado como um tipo mais porreiro que o Buddha, em casos como: não tem jantar, Buddha arranja uma pedra e água, e Jesus transforma a pedra em pão e a água em vinho. Ao mesmo tempo, um dia umas raparigas na escola dizem a Jesus que ele parece o Johnny Depp, coisa que o faz feliz e enquanto isso dizem a Buddha que ele se parece ao Buddha, o que não é levado como um elogio (e como seria possível ser levado como um elogio quando estamos a comparar com o Johnny Depp?
Versão online e em inglês disponível aqui: http://www.mangareader.net/1406-45665-1/saint-oniisan/chapter-1.html

Entretanto todos os nossos peixes excepto um morreram então decidimos baptizar o sobrevivente de Harry Potter - the boy who lived. E, por outro lado, também decidimos chamar-lhe Jesus então ás vezes é o Harry Jesus (variação possível com o formato de Hairy Jesus) ou Jesus Potter.

Tivemos um fim de semana prolongado em que bastantes segundos anos decidiram ficar em campus para
a) dormir
b) talvez trabalhar um pouco porque não andamos a fazer nada e askfahlsgifmja

No domingo fomos a Pune e comemos num restaurante chinês, situação que fez a Ting (China) ficar bastante deprimida. Acontece, mas podemos sempre ver as coisas como tentativas de qualquer coisa o que já devia ser bom, não? como por exemplo, tentativas de fazer pasteis de nata, ou coisa assim, e ficam semi pasteis de nata o que já é metade pastel de nata e isso não está nada mal.

Já que estou hoje a escrever coisas tão engraçadas (ou seja, estúpidas), vejamos outro ponto de vista de vida interessante. O Vatsal Londres/Índia, disse me que a sensação de querer ir a casa de banho é uma boa sensação porque é um desejo que podemos realizar facilmente.

Finalmente chegou hoje o nosso professor de sistemas ambientais, já aguardado desde o íncio do ano que estava no Canadá a espera de um visto. Ou seja, mais trabalho. Yey.

Da Lista de música portuguesa por mim elaborada e muito pensara para a Ulrikke, das que já foram ouvidas  Deolinda (passou por mim e sorriu) e Rui Veloso (Chico Fininho) foram mais que aprovadas. Isto para além da Roleta Russa do Valete, mas isso foi mais pelo - ena, vou aprender músicas gangsta em línguas diferentes.

Temos tido caranguejos a entrar no quarto, mas atenção, são caranguejos que trepam! sobem paredes, cortinas, qualquer coisa. Eu por outro lado, tenho um amigo grilo que não sei que plantações encontrou por lá mas está a viver por baixo da minha cama. Descobri tal espantoso facto porque: ouve-se no ar um grilo, normal, parece ser lá fora. Vou dormir, encosto o ouvido à almofada e de repente o som está muitíssimo mais próximo. Mexo-me. O barulho pára. Investigo a zona com uma lanterna. O barulho pára. Bem, devia dar lhe um nome, o meu novo amigo.

2:46 parece me uma boa hora para abandonar esta página e ir dormir tendo em conta que a minha primeira aula de amanhã é às 7:30, não? (...horários normais de estudantes MUWCI... ou provavelmete UWC em geral, se bem que nós temos um bocadinho tendência ter menos regras)

3.10.12

Um resumo do que tem acontecido nas últimas semanas muito muito resumido que se calhar era boa ideia eu ir trabalhar

Celebrações do 50º aniversário dos UWC! (parabéns) e em Novembro celebrar-se há o 15º aniversário de MUWCI, tivemos sorte, ano de festa. Alguém disse: já pensaram, já pensaram que nós vamos estar vivos para a celebração dos 100 anos...?




Isto veio com seminários sobre tudo e mais alguma coisa, dias demasiado cheios. E o fim de semana seguinte com mais workshops de tudo e mais alguma coisa. Problemas com o director, reunião com o director, a fantástica conclusão de que deve ser impossível ser um estudante UWC e "questionar" as coisas, sem a algum ponto ter conversas revolucionárias com membros da administração.

Trabalhos de investigação de teatro, noites até tarde a trabalhar num canto muito húngaro (notem que qualquer húngaro, para além de ter um que de intimidante que pode ser das minhas melhores amigas mas tem, vos dirá que são da Europa central, e as pessoas são estúpidas e pensar que isso é a Alemanha mas se olharem para um mapa é mentira) a comer manteiga de amendoim americana e café da Malásia para podermos aguentar com essas tarefas. Trabalhos atrasados, prazos ultrapassados. Espétaculo de teatro, a primeira vez que tivemos de mastigar Shakespeare (auch). A adaptação da peça para a época de teatro a progredir, o professor mais wow de sempre que aceitou ser parte dos nossos actores e foi portanto o único que não teve audição. E planos de estar em duas peças com essa húngara  Katalin. Piadas sobre húngaros  Are you hungry?

Um desafio de música portuguesa, um peixe morreu, depois dois peixes morreram, já só temos dois. O fim do "trial period", a nossa nova equipa de pequenos palhaços já formada - que comece o treino. Aulas de espanhol em que há uma grande conspiração quando os portugueses estão 1 minuto atrasados porque estes portugueses estão obviamente sempre a faltar às aulas de espanhol. Modern dance, vamos fazer a dança do dinossauro. Já consegui que me partissem os óculos, mas tem garantia (yey).

A lista de universidades finalizada ( Bennington College, Kalamazoo College, University of Glasgow, Royal Holloway - University of London, Central School for Speech and Drama - University of London, Royal Conservatoire of Scotland), as cartas de recomendação pedidas, as coisas em progresso.

Uma tarde no med centre, noites sem dormir e grandes sestas. Sessões de skype com outros lados do mundo. Muitas saudades de segundos anos, abraços às heranças, pequenas coisas que nos deixaram. Listas de compras para as visitas de Natal, planos para essas viagens. Conversas até demasiado tarde. Domingos à noite, uma da manhã é sempre hora de cozinhar bolo, ou arroz doce, ou qualquer coisa assim. Feriado do dia de nascimento do Gandhi e um workshop de dança (mandatory for all theatre and dance students) com uma convidada norueguesa, espétaculo musical na mesma noite com o tipo de Calcutá com o cabelo mais louco de sempre, e a Irlandesa menos branquinha.

Se eu me lembrasse de mais coisas (que seriam intermináveis) isso era capaz de ser mau para o artigo de espanhol que era suposto ter escrito esta manhã e depois lá pioravam as conspirações, por isso é melhor eu ir e tentar publicar mais qualquer coisa talvez daqui a uns dias, pode ser?

: D


15.9.12

Dizem que viver na Índia pode distorcer a maneira de ver as coisas, de interpretar o mundo real

E depois, e depois,

Parece que agora preciso de óculos.


(ate que sao engracadinhos, tirando o facto de fazer as coisas ficarem maiores o que faz com que eu me sinta mais pequena ainda e que tropece nas escadas)

(ja agora, isto nao tem acentos porque nao estou no meu computador e va se la descobrir num mac indiano como acentuar as palavras sem ir copiar/colar a outro lado)

3.9.12

Nós, segundos anos (coisas lindas)




Aqui, praticamente todos aparecemos, mais professores, mais membros da administração, mais animas, mais tudo. Um vídeo de boas vindas aos primeiros anos, ou por outras palavras, nós a tentar ser simpáticos e não lhes meter medo e a dizer umas quantas coisas palermas.

22.8.12

(re)cantos, fotografias

Tendo em conta que temos muito mais raparigas do segundo ano do que virão do primeiro, somos 3 para uma que chegará no próximo fim de semana. Eu, o Sul da Europa, ao lado, a Ulrikke, o Norte da Europa (Noruega) - com quem já partilhei casa mas não quarto durante um ano e portanto já tenho bastante familiaridade sendo que nos escolhemos para ficar no mesmo quarto, junta da porta, a Srindhi, a Índia, Mumbai. E do outro lado entre o meu canto e a porta, o espaço vazio, que ontem soubemos que será ocupado por uma primeiro ano da Ilha Maurícias.

Como se parece o canto da primeiro ano ainda não chegada:


As luzinhas decorativas já foram uma adição nossa, tendo vivido numa casa só com primeiros anos, estamos agora a tentar alegrar o lugar. E... deixamos-lhe notas ainda antes de sabermos o nome dela:


"Dear first year, here is an awkward note for you! It's 00:10 and I have a ton of homework I haven't done so I decided to put up lights and Joana gave you a mug. You will arrive in one week. Woop woop/ Ulrikke"


"Please don't be scared of us. We are (a bit) nice, I promise. I can even get you portugueuse sweets if you are sad, and Ulrikke's candles smell nice! As moral support, we have 6 fish (they are a lot because they die fast) :D Joana"

Em frente a este, o canto Indiano:


Ao lado deste, o canto Norueguês:





Notem que, a Ulrikke tem uma obsessão muito grande (para o lado do não saudável até) por coisas asiáticas, e pela Ásia, e por pessoas e comida asiática)






Entretanto, já morreu hoje um peixe. Um dia escrevo um livro chamado a trágica história da norueguesa que matava os seus peixes. (O ano passado um gato entrou no quarto e matou um deles, depois ela deixou os por um fim de semana para a Katharina tomar conta e morreram todos, este ano foi a comida do ano passado que achamos que não fazia mal dar mas que estava um pouquinho bolorenta).




Em frente deste, o meu canto Português:





















Como ter um sofá, sem na verdade ter um sofá:
Ter uma mala grande de viagem. Por-lhe cobertores e uma almofada em cima. Done.

Já agora, parece que eu tenho muita coisa mas pelo menos metade são heranças de segundos anos.
















 Um brinquedo que veio do Vietname, a libelinha que se equilibra em qualquer ponto (até no nariz... eu experimentei!)


Já agora, as fotos podem estar em posições esquisitas ou seja o que for mas acabei de perder imenso tempo a tentar dispo-las decentemente. Hmm... talvez agora vá dormir...

13.8.12

Ano 2 – Preâmbulos e chegadas


Uma semana antes do tempo, para ultrapassar o jet lag, para não chegar à Índia e começar as aulas no dia seguinte, voo para Bangalore para passar uns dias com a Tanvi e depois seguir com ela para Norte, para                a nossa montanha.
Primeiros voos com a emirates, escala no Dubai. Notas tomadas: eles dão muita comida… E são a primeira companhia aérea onde vi pensos higiénicos nas casas de banho, e isso é engraçado, tem de admitir. 
Estando muito cansados porque não são pessoas de dormir no ar (afinal eles tem aqueles ecrãs interactivos com filmes para alguma coisa, e talvez fosse melhor começar a ler aquele livro de inglês que era suposto termos lido no verão) e depois quiserem dormir no aeroporto de escala (onde tem de passar 7 horas, maravilhoso, não?) e manter as vossas coisas seguras, então só tenho uma coisa a dizer: óculos escuros. Com reflexo. Ninguém vai perceber se estão a dormir ou se estão a “descansar”, logo, ninguém se vai aproximar de vocês e das vossas coisas. A sério, isto resulta. Quanto mais fluorescentes forem os óculos melhor, vai na volta enquanto estão acordados divertem-se a olhar para a cara das pessoas a olharem para vocês.

Chegada a Bangalore (ou Bengaluru, poque aqui não deve haver terra nenhuma com um só nome), entrei no país com visto, sim, mas sem o registo do ano passado, o que aparentemente é ilegal mas não tive de subornar ninguém para fazer isso portanto não sei o quão ilegal será realmente. Passeamos pela cidade, passei uma noite acordada (onde fui produtiva o suficiente para escrever 2000 palavras filosóficas que era suposto ter escrito durante as férias) e um dia a dormir, recuperar horários, fomos pondo a conversa em dia. A Tanvi contou-me de uma estrela de bollywood que já era consideravelmente famosa mas que subiu na carreira depois de dormir com o Ronaldo. Fomos vendo os jogos olímpicos (sim, a Tanvi é aquela pessoa que vivia na minha casa e que corria uma quantidade de km impressionável diária) e o pai dela não estava porque comprou um carro novo e teve de ir a um templo para o abençoar. Ultimas visitas, como também eu já tinha tido, tudo isso, e partimos (no carro novo, ainda com os seus plásticos protectores todos o que, tendo em conta as tradições nacionais, vão ficar lá eternamente).

Vídeoclipes de Bollywood sobre aventuras europeias

Primeira noite, depois de qualquer coisa como 8 horas de carro, numa estação da força aérea (o pai da Tanvi pertence a esse voador ramo militar). Mais uma vez, não é suposto estar lá alguém portugês ou de outra nação qualquer sem algum tipo de autorização superior, mas combinamos que eu não saia de casa para ninguém descobrir e resultou.  Seguimos para Mahabalashwer no dia seguinte, a terra que em março de há algumas décadas inspirou os Beatles na sua canção Strawberry Fields Foreves. Sem morangos, com compotas e preservas de morango, com as plantações, mas mais que isso, só chuva. Tanta chuva que mudámos os planos e em vez de ficarmos duas noites ficamos apenas uma e decidimos ir para muwci na manhã seguinte.

Em Mahabaleshwar: Tanvi the tree hugger


Chegamos a um campus ainda mais vazio que a sua metade de alunos que o vão tentar (mas falhar) encher nas duas semanas em que estamos sozinhos. Um campus mais uma vez pintado de um verde sem vergonha e de poças de água com habitantes que tentamos não pisar aquando da nossa passagem, verde outra vez, esta Índia que nunca para de virar de cores, Índia de metamorfose, borboletas (no estômago) constante. Há uma sombra dos nossos segundos anos em todos os cantos, ainda nos lembramos de tudo o que nos ensinaram, de como nos inspiraram, ainda não nos sentimos capazes de fazer isso ao novo ano que chegará demasiado cedo. As últimas palavras deles ainda estão connosco, um destino que nos deram, uma missão para nos ocuparmos enquanto tentamos adaptarmo-nos aos recém-chegados à nossa casa e não pensar nas saudades nos que aqui viviam antes.
“You have to be strong.”
“Mother fucking clown. Don’t waste your time here.”
“Our little actress.”
            “It’s ok, it’s going to be ok.”
            ...
    
                Os gatos de uma professora que já não está cá andam a vaguear-se por todo o lado. Os sacos que cá deixamos cheios de coisas tem um leve cheiro a mofo que ameaça tornar-se pior não havendo neste momento sala comum na wada 1 o que implica que tão pouco há máquina de lavar e secar. Remexendo nisso, encontramos muitas heranças dos nossos segundos anos, família. A minha roomie da Noruega, Ulrikke, que já viveu na mesa casa que eu mas não no mesmo quarto chegou no Sábado às 4 da manhã e começou a gritar e depois atirou-se para a minha cama. Entretanto, está tudo em obras porque um monte de instalações que era suposto estarem prontas antes de nós chegarmos não estão. Agora, deixar algum trabalho feito enquanto as coisas estão calmas e começar a preparar a orientation week da multidão que breve chega.

29.4.12

1728000 segundos

O título, o título tem nos perseguido à media que aqueles números se vão reduzindo. A primeira chuva do ano lembra quando tudo começou. Agora estamos fartos do calor, os habituais 40ºC e não nos escondemos, agora conhecemos-nos e dançamos, corremos às voltas até estarmos completamente encharcados com a água gelada que o céu nos dá. Sabemos que falta pouco. Exames e trabalhos finais só para atrapalhar tudo o resto que se passa. Memórias. Primeiros anos já seleccionados, já a apresentarem-se e conversar pela internet. Reunião para as limpezas e arrumações de final de ano, quem pintou paredes tem de pagar, vejam o que levam, o que fica. O autocarro do último dia sai sempre algumas horas mais tarde, há tanta gente para abraçar. Organizar a festa de graduação, tradições. Segundos anos que escrevem testamentos, quem fica com quais das suas preciosidades depois do que será o seu nascimento num outro lugar mas o término da sua existência nestas nossas casas. Universidades, decisões, gap years, programas de viagens e de trabalho. Saudades de casa, vontade de ficar. Para melhor ou para pior, para diferente, para outro verão e depois outro ano aqui, tudo agora é uma flecha,
até já *


20.3.12

quatro palavras em hindi

Mera naak laal hai


regra de medical clowns, os palhaços mais bonitos de todos, coisas misturadas com recordações das três informações que se partilham no nosso círculo de abertura "alguma coisa boa que aconteceu a semana passada", "como te estás a sentir" e "qual a cor da tua roupa interior", uma série de jogos, andar devagar, andar depressa, falar com ratos de peluche, alimentar toda a gente com cenouras e de uma memória pequenina e linda de estar com a Toni, italiana, num hospital em Paud e fazer uma criança rir logo depois de estar a chorar por levar uma injecção. 
Traduzindo isto, o meu nariz é vermelho.
:o)

15.3.12

Travel Weeeeeeeeeeeeeeeeeeek!



Data: 3 Março – 10 Março

Destino: Kerala (Kochin e Allapuzzha)

Lista de passageiras:

Jiya - Uma indiana de Mumbai ou Bombay ou seja o que for mas o que importa é que segundo ela não foram os portugueses que deram o nome à cidade que adora – aquela que tem alguns milhões de pessoas porque sim, tem de ser assim para ser o que é uma cidade a sério. As coisas que a fazem lembrar de casa são perder-se no meio de confusões e ouvir pessoas a gritar com os condutores de rickshaws. Não gosta do Gandhi mas acha que é melhor não falar disso muito alto num sítio publico, ainda queremos viver mais uns anos, afinal. Tem amigos paquistaneses. E tudo isto vem junto num pratinho de metro e meio chio de amor à pátria e gozo constante aos turistas branco que tira fotos às vacas e às criancinhas da rua.
               
Olga – Polaca do segundo ano que fala francês quando está chateada e quer reclamar e também fala alemão porque sim. Não come doces porque estamos na quaresma, mas se forem em forma líquida (como só todos os sumos que se vendem aqui e que tem imenso açúcar) já pode ser. Uma cultura europeia, daquela das pessoas cultas que vão a museus e que não vem filmes de Hollywood (só os que ganham Óscares ou algo com classe) e que trazem sempre na mala álcool em gel para desinfectar as mãos. Organização. O que a faz lembrar de casa é usar o cinto de segurança no jipe. É o tipo de rapariga que tem amigos com benefícios que nunca são mais que isso e que quase teve um orgasmo quando no McDonalds um turista com a mesma cor de pele dela e sozinho usou o guardanapo no colo coisa que, já agora, também um homem polaco faria.
                
Joana – Preencha aqui o que achar apropriado. Mas as outras duas acham que o meu livro de bolso de anedotas é hilariante e que é bastante estúpido não ter um cartão SIM indiano, porque posso morrer, ou coisa parecida, e se me estiver a afogar faz a diferença. E que eu estou demasiado relaxada perante isto tudo (mesmo que as coisas tenham acabado sempre como eu disse: mais ou menos a modos que bem.)



Dia e meio em Pune, parcialmente em casa de alunos de MUWCI que sabem uma quantidade significativa de piadas sádicas sobre crianças (como é que salvas um bebe de morrer afogado? Tiras o pé do balde.) e sobre o Hitler e judeus (que interessantemente também se podem aplicar a alguns “amigos” da Olga). E numa sala de cinema, com dois filmes que começavam com o hino (pelos vistos todos os cinemas são assim, há que manter o povo apaixonado) mas que não eram de bollywood (paz de espírito, o mundo continua bem enquanto não for obrigada a pagar para ir ver desses numa sala de cinema.) Descobri que pipocas caramelizadas fazem lembrar casa porque aqui são todas de coisas como sal, queijo, manteija, chili e uma série de masalas diferentes.

Dia e meio num comboio. Na verdade, se juntarmos a viagem de volta fazem três. Grande parte a dormir. Um portátil e vêem-se uns filmes. O vendedor de tchai ou café, mais a segunda dadas essas tendências no sul, sempre a passar com a voz robótica que lembra o vendedor das bolas de Berlim na praia. Mas aqui há mais: há o Biryani, as Samosas, as bebidas, as bolachas e as batatas fritas, entre mais duas ou três coisas que podem surgir misturadas com o indiano que nos vem acordar da sesta a perguntar se queremos almoço ou jantar. Horas de leitura, a paisagem lá fora e haverá de certo alguns loucos que acompanham na visita à área das casas de banho, entre compartimentos, vai-se de porta aberta a sentir o vento por uns momentos em que todo o universo parece caber nessa saída para o mundo fora da nossa enorme lata com carris. O engraçado é que fui chamando-me de Dianne, os bilhetes estavam registados assim mas com as normais mudanças de planos fui eu em vez dela. O plano era fingir que estava a dormir à passagem do fiscal e a Jiya tratava do resto visto que a reserva das três tinha sido feita conjuntamente. Viagem de ida, tudo bem, “a Dianne está a dormir e eu mostro os meus documentos” e passa-se. Viagem de volta “Elas estão a dormir” e ele quer ver os passaportes, a Jiya acorda a Olga, a Olga mostra o passaporte, a Jiya fala Hindi e eu continuo imperturbada naquele comboio, miraculosamente. Vim mais tarde a saber que o dialogo que ela teve foi qualquer coisa como “Ela não se está a sentir muito bem.” “O que se passa?” “É o estômago, pessoas brancas, sabe como é.” “Ah, esta bem.”

Efectuamos tentativas extremamente vãs de dar um passeio num barquinho a remos. A pessoa do meio, sangue luso, não ajudava a manter o balanço no meio de risos. Não é que as outras duas que estão metidas no assunto compreendessem muito bem as grandes leis da física de manejar barcos a remos. Alunos do IB e os seus textos gigantescos e falta de capacidade de remar, maldito seja esse IB bem como as suas 1000 palavras para cada disciplina que ficaram de ser escritas por essa semana.

Uma expedição privada no barco do sítio onde ficámos, os canais, os coqueiros, o céu, o vento, a pesca, os nadares, os pequenos barcos e os barcos casa tradicionais, as cobras de água, os peixes e as aves. E o senhor condutor a ensinar-nos a guiar para depois ir ali só fumar um cigarrinho e ir, à janela, indicando com a mão que é para a esquerda, esquerda, esquerda, ou ainda vamos parar à margem. 

Isto são coisas que se contam entre um milhão de outras mais que ficam por dizer pelo risco de isto se tornar (se não aconteceu ainda) demasiado extenso e aborrecido. E porque tenho certa de 2000 palavras para escrever até Domingo.

 Voltamos para um Campus bastante académico (auch, isto é uma escola, de facto) com o facebook censurado (problema resolvido com tecnologias às quais os chineses estão acostumados) e com metade das pessoas doentes por qualquer coisa que se passou durante esta semana como comidas estranhas ou diferenças de temperatura que aqui se mantém quente. Amanhã, depois de uma apresentação sobre Fernando Pessoa para a aula de filosofia, celebra-se o Holi, o festival da cor, o festival dos novos começos (uma verão mais arco-íris do atirar tinta em pó no festival do Ganesh) e Sábado damos um concerto em Pune.
E está tudo bem :)

7.2.12

These are the hilltop updates!




O nosso novo director, mencionado no ínicio do vídeo, tem nos convidado em grupos pequenos de cada vez para jantar em sua casa e, mais que isso, ele prometeu não cortar a barba até saber todos os nossos nomes condicionando-se a, se não o fizer e desistir antes do tempo, doar 100 rúpias ao C.F. (Community Fund, fundo para bolsas de estudo) por cada aluno de quem não souber o nome.

3.2.12

Primeira exeat de 2012 e outras coisas que até que podem ser consideradas interessantes e que escrevi porque é mais divertido fazer isso do que fazer qualquer outra coisa que seja académicamente produtiva

Depois de 5 horas para Mumbai, 12 para Goa e 32 para Varanasi, no primeiro intervalo de tempo disponível para viajar neste semestre, alguns de nós decidimos ficar por perto e passar um dia e uma noite a explorar um desfiladeiro nas áreas montanhosas que rodeiam o colégio.

Vai ser algo que vamos recordar pelo facto de metade do grupo ter ficado extremamente mal disposto, sendo que alguns (consegui estar neste grupo exclusivo!) fomos parar ao centro médico. Indícios apontam para que tenha sido resultado da água que um aldeão simpático nos ofereceu. Pode também ter sido uma gravidez psicológica colectiva (er... esperem, se calhar não).
Por um lado mais positivo ou, pelo menos, engraçado, também ninguém se vai esquecer das histórias de como eram os professores de MUWCI há 10 anos, que como hoje eram jovens mas com quem as coisas funcionavam de uma forma um bocado diferente, e da mítica lenda do professor que se escondia nas casas de banho quando algum outro mais velho vinha mandar calar as festas e que um dia fez striptease no campo de basquetebol.

Fotos desse dia e meio na montanha e de gente cansada que defendia o Óscar (professor de biologia e sistemas ambientais mexicano e sueco, ex aluno de MUWCI que nos contou as tais lendas) quando ele pedia uma siesta. E de um sítio lindo,



Vídeo de fotos não compilado por mim e cuja existência eu desconhecia até consultar as nossas notícias mensais (com mais videos de fotos em baixo à direita).

Músicas.

Agora, Fevereiro, o mês do nosso gigantesco e interminável festival de teatro, iniciado com um desfile e trailers no college meeting de segunda-feira, já com um jantar temático passado - be who you are not -, na quarta-feira, e com um programa bem repleto de tudo que consegue envolver como directores, assistentes de seja qual for o nível, ou actores, pelo menos metade dos alunos em campus.
E depois há duas ou três alunas do primeiro anos da disciplina de teatro que decidiram envolver-se em três produções e correm risco de esgotamento ou uma crise de personalidade por estar sempre a trocar de personagem. Pronto, ninguém vai ter um esgotamento (crises de personalidade não falo). Mas dormir em algumas aulas e passar a ignorar o significado da expressão trabalhos de casa torna-se cada vez mais tentador.

A propósito disso, ou não, nota meio a dar para o parva (ou meio a dar para o não parva, se formos pelo lado optimista da coisa): se vivemos na nossa escola, afinal porque raio ainda temos isso de trabalhos de casa? É para fazer no verão e mandar por correio? Ou alguém em Portugal se oferece para fazê-los por mim e enviar de volta a tempo das aulas do dia seguinte? Procuram-se voluntários (não esquecer a questão das zonas horárias).

Já habituada a dormir 6 horas por noite por mais de metade das noites da semana (mas continuando a ter ar de zombie por causa disso),
Joana

27.1.12

Estas palavras que são só nossas



"Pode sentir-se falta até de um esfregão velho. As saudades turvam o tempo e, à distância, qualquer coisa má, péssima, pode transformar-se em qualquer coisa maravilhosa, uma especialidade. É a mesma coisa, a mesma qualquer coisa, mas as saudades já a confundiram. Ela própria, lá onde estiver, não sabe que tipo de coisa é."

José Luís Peixoto, Livro

As saudades são uma palavra que só existe na língua portuguesa. Eu, aqui, falo em inglês. Como é que se diz aqui a alguém que se tem saudades? 
É impossível. Pelo menos, por essa uma única palavra. Poderia dizê-lo, explicar por linhas de letras de palavras. Mas não era como aquela simplicidade de uma coisa pequena, ao jeito do número de passos que as nossas fronteiras dão traçando as linhas dos limites da terra infinita onde nascemos. Saudades, conjunto de letras mínimo quando comparado com o que tem guardado no seu peito. 
Mas para além de tudo o que é sujeito - as pessoas, os livros, o tempo e as ondas do mar de onde um dia partiu gente em busca de sonhos - dessa saudade que vem do peito ser confundido pelos centímetros e perder a noção de o que é, a palavra em si perde noção, aqui, ao ser difícil de exprimir de modo a ser compreendida. Já mal se sente, tudo o que era qualquer coisa má ou péssima que se transformou em qualquer coisa maravilhosa, uma especialidade, fica aí, sem rumo nem quê nem para quê, jaz, parado, como coisa que mesmo anónima consegue ser fantástica. E por falta de entendimento, talvez, já não se sente saudade nem das coisas que já eram maravilhosas, nem das coisas que pela névoa montanhosa em maravilhosas se tornaram.
Consegue tornar-se bom, não se ser entendido, deixam de se sentir fados lusitanos dos que se cantariam de vestido negro. Desentendidos, desentendemo-nos connosco mesmo. Somos felizes na ignorância dos que nos rodeiam.
As saudades, de vez em quando, num minuto que se pára a olhar para o ponto de vista que se tem do céu nocturno deste lado do mundo, são só de se dizer saudades e de todos compreenderem, acreditarem-nos e, num gesto bem português de povo que diz conjuntos de letras mínimos com muito guardado no peito, responderem com um sorriso meigo, estas palavras que são só nossas, sim, saudade.






Ainda há quem questione, porque é que a Joana está a cantar aquelas músicas outra vez?
Mas logo outra voz de quem vive na mesma casa e está acostumado responde, são coisas portuguesas. 



21.1.12

Recentemente, ouvi por aqui alguém dizer uma coisa curiosa,
Podemos vir todos de sítios diferentes, pode haver pessoas que em casa comem com pauzinhos ou com talheres ou com as mãos, podem existir os que dão imensos beijinhos a cumprimentar os outros e os que simplesmente dizem qualquer coisa tocando com a mão no peito, podemos ser todos imensamente diferentes numa quantidade de aspectos que se calhar nem nós mesmos imaginamos ainda, mas a verdade é que, seja de onde for que viemos e como quer que tenhamos sido criados, todas as pessoas se riem quando estão felizes e choram quando estão tristes.

11.1.12

"Santos da casa não fazem milagres." (os indianos sim)

Em sessões nocturnas de tradução de expressões nacionais em que se descobriu que se traduzirmos "de pequenino se torce o pepino" para inglês pode ter conotações bastante constrangedoras, e que "estar a ver navios" corresponderia em norueguês a qualquer coisa como"sair para ir apanhar amoras", descobrimos também que com a chegada dos britânicos à Índia chegou uma quantidade enorme de inovações que foram então baptizadas pelo que se achou que era mais lógico em hindi. E foi assim que descobrirmos que se traduzirmos a palavra em hindi para ping-pong, significa literalmente - "Numa mesa verde tu dás bang-bang e recebes bang-bang". Não há expressões idiomáticas ou provérbios nossos ou de outra língua qualquer que vençam isso, é simplesmente demasiado evoluído para concorrer contra uma coisa dessas seja de que maneira for.

10.1.12


Há palavras que são cheias. Todas as palavras tem algo que se lhe diga, um significado, um sinónimo, uma definição escondida numa página qualquer desses tão gigantes e quase medonhos livros chamados dicionários. Mas há palavras que tem muito mais palavras que se lhe digam que as outras. As coisas, coisas gerais, que a muita gente podem berrar coisas secretamente ao ouvido seja por que razão for, por serem as coisas que são. Essas coisas são as coisas que são para quem as são por berrarem coisas secretamente ao ouvido a quem quer que berrem coisas secretamente ao ouvido.  A minha definição para essa mesma coisa que a mim nada me diz é: isto. Se calhar podia inventar, vir com conversas , falar mais dessas coisas que são esses istos. Mas, para mim, essas coisas são só esses istos. Essas coisas não me berram secretamente coisas ao ouvido. São palavras, para mim, vazias. Com o tempo, com a experiência, a vida, tudo isso se pode ir modificando, como papéis que rodam por vários actores, as palavras que são ditas e sentidas por uns e por outros. Imaginemos as palavras como balões. Os balões podem estar cheios mas quando isso acontece é de ar que eles estão cheios. As palavras enchem-se de mais palavras. O ar dentro dos balões que são palavras são as pequenas partículas que são mais palavras. Assim,  grandes, os balões cheios de vida como se se estivessem preparando para uma festa de aniversário de uma criança, ocupam muito espaço por dentro, lá no nosso sítio de guardar as palavras. A definição que temos para elas é maior, são palavras que nos berram coisas secretamente ao ouvido. Já não dizemos que a definição dessa palavra é: isto. É antes algo mais elaborado, a definição dessa palavra que dá nome a algo que equivale a um balão cheio no peito é: isto e isto porque aquilo e podem acontecer muitas coisas e variantes nisto tudo.
Há palavras daqui, deste sítio, que dizem respeito a este blog que são balões gigantescos cheios de mais balões a voar.
Chama-se: Índia. E UWC. E as definições são muito maiores que este texto poderá exprimir.
Isto era só para dizer, é bom estar de volta. Se calhar ocupei muito tempo de quem quer que leia isto só para dizer isto (apesar de ter cortado metade), ainda por cima porque em Portugal há muitas pessoas que estão sempre deveras mais ocupadas a falar de coisas extremamente relevantes, como o que aquela pessoa que está a passar na rua tem vestido, e a crise, claro. E eu estou para aqui a falar de balões. Balões? Quando se está em crise não há dinheiro para balões, que estupidez, balões. Olha, consegui estragar o fim do texto, fantástico.

Tentando melhorar isso,


1.11.11

Pelo estado mais pequeno da Índia, junto do mar, outrora de um país pequeno, junto do mar (escrito por uma pessoa pequena que gosta do mar)


Depois de uma sexta-feira marcada pela remodelação dos móveis do quarto, nós quatro raparigas a empurrar roupeiros e camas e a levantar secretárias até atingir o ponto ideal. Uma sessão de cabeleireiro no pátio de casa, mas de costas para o espelho, para caso estivesse a correr mal eu não ficar traumatizada de imediato e ter calma até ao resultado final:
Quero cortar o cabelo.
Eu posso cortar-te o cabelo!
Consegues?
Eu cortei o cabelo à minha irmã mais nova uma vez.
Está bem, vais-me cortar o cabelo, roomie.
Mas depois ela ficou a odiar-me durante um ano, até ao cabelo crescer novamente.
Humm… que se lixe, se quiseres podes cortar-me o cabelo na mesma, se tu confiares em ti eu confio em ti, pode ser?
Uma cara de pele branquinha, pele de quem cora com facilidade, a ficar mais encarnada com uma mistura de medo por também não confiar em si e ao mesmo tempo entusiasmo pela responsabilidade que lhe foi atribuída. E uma tesoura que era boa para cortar papel mas com cabelos encravava um bocado. Mas assim foi, recebido com espanto e como foi referido durante o processo, o cabelo são células mortas por isso por muito mau que fique não morre ninguém.

Isto seguido de cozinhados à pressa para partir em direcção ao mount wilkinson onde a escuridão de uma noite onde a lua só chegou muito tarde fez com que a caminhada tivesse uma série de peripécias ilumidas apenas por lanternas que quem tinha ia gritando para avisar os da parte de trás da fila. Rochas, não tropecem. Vacas selvagens, os indianos chegam-se à frente por estarem mais habituados a lidar com isso. Água, ou lama, ou talvez tenha sido algo que as vacas por aqui deixarem, cuidado. Está toda a gente? Vamos exclamando os números que nos foram atribuídos para nos certificarmos que estamos ali todos os treze. Alguma criatura no meio das ervas que quase são do nosso tamanho (meu, pelo menos) que faz um barulho estranho e com quem apesar de não a vermos iniciamos uma breve conversação: olá… Nós viemos em paz… podemos passar? A medo, após aguardar um pouco, lá fomos. E uivamos por grande parte do caminho, fazendo concorrência aos cantos que ecoam sempre das vilas que jazem nos vales em redor da montanha que percorremos, junto daquela onde vivemos. Uma fogueira um pouco (bastante) falhada, era suposto termos recolhido lenha pelo caminho mas não vendo esse percurso sequer também seria complicado de ver qualquer coisa mais. Uma guitarra e uma pandeireta e vozes, música. Histórias de terror que só dão para rir (a Tanvi é assim mesmo). Chá e biscoitos que ficaram mal cozidos e outros petiscos dos quais tínhamos enchido as mochilas. Um bolo de chocolate à meia noite, mais propriamente chocolate envolvido em bolo, presente cozinhado pelo Japão e pela Alemanha/Noruega. Uma noite de estrelas que choviam e um nascer do sol acompanhado de passos rápidos para chegar cedo e entrar naquele primeiro autocarro para Pune. Perdida com uma finlandesa procurando o Hard Rock  Café onde os empregados de mesa fizeram o favor de presentear chantilly com uma cereja no topo (agora tens de comer sem usar as mãos, lindo serviço, cara toda branca). Por isto perdeu-se o primeiro autocarro de volta e o segundo é demasiado tarde, confusão de transportes para voltarmos a horas decentes. Uma quantidade luminosa de pessoas a cantar os parabéns ao jantar, ouvi-os em português (europeu e do Brasil), espanhol, hebreu, hindi, inglês, alemão, japonês, chinês e nem sei que mais. Não tenho nada para ti mas posso te dar um bocadinho de chá (o bom que isso é para quem percebe dessas metáforas). Chouriço e também boxers rasgados pela tradição dos wedgies que foram sofridos em meu nome pelo único outro português no campus, não é algo que seja divertido. Distinto de todos os outros, longe de tantos que queria ter tido por perto, mas ao mesmo tempo tão, tão bom, sem dúvida alguma.

Um domingo com um jantar organizado pelo linking group, código de vestuário – trajes nacionais, ou o mais perto disso que tenham. Brincos do galo de Barcelos, espectáculo. Ementa especial também, com direito a panquecas coreanas que são uma sobremesa fantástica.

Uma segunda cheia de trabalho que tinha sido adiado nesse fim-de-semana e com um jantar e festa de Dewali. A festa da luz, em toda a índia explodem quantidades inimagináveis de fogo de artificio, dizem que mais que no ano novo no resto do mundo. Pequenas férias, finalmente, graças a essa tão importante festividade hindu. O destino não é um onde serão vistas as marcas dessa significância toda, mas é certamente um magnífico destino. Terça-feira, depois de uma manhã com aulas, vamos para Pune apanhar o autocarro onde se passaram cerca de 11 horas, até chegarmos a Goa. Passaram um filme da indústria cinematográfica indiana, bollywood, um homem exageradamente musculado vestido em cabedal e com uns óculos escuros e uma mulher a dançar com pouca roupa, uma quantidade gigante de pessoas a dançar e a cantar num playback claramente (mal) montado. Tenho uma nova mãe, Wanyi, segundo ano chinesa que diz que eu sou tão fofinha que quando ela tiver uma filha quer que ela seja como eu, entreti-me por algum tempo na viagem a conversar com ela, que estava atrás de mim. 
Eu estou a comer porque estou aborrecida, não tenho fome, depois fico sem comida então vou dormir ou então fico acordada toda maldisposta porque comi demais, seja qual for o resultado, tenho alguma coisa com que me entreter, sejam alimentos, o sono, ou uma barriga rabugenta.
Vocês são mesmo pessoas interessantes.
A forma como tu disseste isso… Parece que nos estás a estudar ou assim, estes chineses sempre a analisar tudo. E depois a conquistar o mundo. E depois o meu irmão a ter que estudar chinês.
Irmão? Quantos anos? Tens fotos dele?
Passando à frente…

Chegados de madrugada, fomos para a praia de Anjuna onde já tínhamos reservado um quarto. Divididos em vários pequenos grupos, fui com a Maarit (Finlândia) e com o Youngho (Coreia) e com eles passei a maior parte do tempo mas também nos encontramos com outros alunos que ficaram na mesma área.  Nesse dia exploramos o interminável Flea Market de Anjuna e à noite fomos para Baga conduzidos por um taxista que, ao saber a minha nacionalidade, falou do quão boa era a vida daquele estado quando os portugueses ai estavam e que de facto se ainda lá estivessem ele podia-nos ter feito o desconto maior que estávamos a pedir mas assim só podia fazer um desconto mais pequenito porque as coisas tinham piorado desde que nos fomos embora. Ainda continuou lá a explicar que havia um negócio qualquer e que era fácil para os goeses candidatarem-se a um passaporte português e que ele se tinha candidatado e queria ir para Portugal. Não sei se isso vale de muito, Portugal também não anda assim muito bem. Lá deixei o rapaz triste com a notícia de que o seu possível passaporte português não é ferramenta de grande coisa. Já em Baga, há que fazer referência a uma parte anterior de “ter amigos entre os nativos é útil”. Um grupo bastante grande de alunos MUWCI em Goa e – O quê? O teu pai é dono deste clube?! É melhor não continuarmos a falar dessa noite.

Na manhã seguinte, preguiçosos, a vontade de mexer não era relevante e decidimos fazer algo bastante inédito na vida que agora temos: ligar a televisão. Coisas indianas. Críquete. Notícias. Tom & Jerry (material de grande qualidade) e, por fim, um milagre aconteceu. O zapping presenteou-nos com: a rtp internacional! O jardim da celeste e o Ernesto a explicar que devemos agradecer quando nos dão presentes, eu a cantar o tema da série e a Maarit a insistir que isto do português é uma coisa que soa mesmo a russo. Depois de conseguir convencê-los de que aquilo era material de boa qualidade e não era russo e ficarmos portanto os três durante quase duas horas a ver rtp internacional (eu ia traduzindo ou eles iam inventado significados, devia ser de madrugada desse lado e eram desenhos animados, pouco importa), achamos que estava na altura de fazer algo de culturalmente significante e prosseguimos no aluguer de duas jeitosas motas. Os capacetes não existem, conduzir do lado esquerdo em estradas um pouco danificadas também não é nada de mais e de cartas de condução nem se fala. Insisti e juntamente com o Zabir (Bangladesh) que estava aborrecido por estar num grupo com moças que só queriam ir às compras fomos os quatro em direcção a Old Goa, um local pequenito que se revelou extremamente mais isolado do que era suposto, ou talvez isso tenha sido apenas por nos termos perdido algumas vezes e assim demorado duas horas a chegar. Isto é, correcção, nós nunca nos perdemos, e uma dica utíl para quem anda em andanças destas é que nunca se está realmente perdido, se admitirmos isso e depois encontrarmos o caminho é apenas isso que se passa enquanto que se dissermos apenas que podemos estar perdidos e depois encontrarmos o caminho podemos reclamar que nunca estivemos realmente perdidos, como aconteceu, aliás, estava-nos a apetecer ver um pouco mais dos arredores de Goa. Ia sinalizando aos meus co-anos a cada marca que via - palavra portuguesa, aquela casa tem mesmo ar de casa portuguesa, aquela palavra é portuguesa, aquele nome é português. Por fim chegamos a um sítio mais pequeno do que era prometido com uma placa colorida a ferrugem que dizia "cidade de Goa". Visitamos uma catedral e um museu e eu fui guia do que é conhecimento cultural a qualquer pessoa com o quarto ano (e um bocadinho mais também). Aqui jaz e o resto está em latim e não se lê metade, olhem o meu amigo camões, e pelos vistos o salazar também tem direito a ser representado neste lugar, ia conduzindo as pessoas com quem estava pelas aulas de história de há muitos anos atrás e por uma sensação de estar num sítio extremamente familiar.

Os dois dias que se seguiram foram marcados pelo verbo vaguear, o primeiro por Vagator, praia vizinha onde a comer caril de peixe (parecido ao da Maria Palmira, especialidade da culinária Indo-Portuguesa!) assístimos em directo a um documentário do discovery channel sobre a reprodução das vacas em directo. (não estou a falar de televisões, perceberam?).
No ultimo dia vagueamos por já não termos as nossas motas e tão pouco quarto onde parar, até a chuva cair forte e andarmos de estabelecimento em estabelecimento até chegar a hora do nosso autocarro. Desta vez fomos num autocarro especial com camas em vez de bancos, uma coisa supostamente magnífica mas não tão confortável assim quando a estrada está, vá, quase a cair do próprio chão. Mas depois de se adormecer o tempo passa a deslizar. Até aquele momento em que abrimos os olhos e vemos que o sol já vai alto. Bom, devemos mesmo estar a chegar a Pune, fantástico. Youngho vai perguntar ao motorista e volta com uma cara estranha. Pessoal, temos um problema. Passamos Pune há duas horas e estamos a ir para Mumbai. Dianne e o seu espírito cor-de-laranja da Florida não parava de rir - a sério, isto é mesmo engraçado. Nesse ponto o melhor a fazer era dormir mais um bocado, que remédio. Um entrar e sair de diferentes de transportes já na grande cidade e finalmente um comboio onde nos sentamos entre compartimentos até uns indianos simpáticos nos oferecerem um espaço para ficarmos e assim fomos à boleia de comboio, conseguindo não chegar ao colégio fora de horas.